Diferença de salário médio de homens e mulheres pode chegar a quase R$ 1 mil no país, aponta IBGE

Dados apontam que, quanto maior a escolaridade, maior é a diferença salarial entre os sexos. 26 de agosto é comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. (Clara Velasco)

As mulheres têm níveis de escolaridade mais altos, fazem mais tarefas domésticas desde pequenas e estão chefiando cada vez mais famílias no Brasil. Mesmo assim, elas continuam sendo desvalorizadas no ambiente de trabalho e ganhando, em média, menos que os homens. É o que mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No sábado, 26 de agosto, foi comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. O G1 coletou dados para mostrar a situação das mulheres brasileiras e como elas ainda enfrentam desigualdades em casa e, principalmente, no trabalho.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2015, a mais recente e completa, o rendimento médio dos brasileiros era de R$ 1.808, mas a média masculina era mais alta (R$ 2.012), e a feminina, mais baixa (R$ 1.522).

Apesar de a diferença nacional entre os sexos já ser alta (R$ 490), a situação fica ainda mais desigual a depender da região ou estado do país. A maior diferença é encontrada no Distrito Federal. Os homens ganham, em média, R$ 3.965, contra R$ 2.968 das mulheres – uma diferença de R$ 997.

Já o estado com os valores mais próximos é Roraima: R$ 1.684 para os homens e R$ 1.646 para as mulheres, uma diferença de R$ 38. Em nenhum estado, porém, o rendimento médio feminino é mais alto que o masculino.

Segundo Cristiane Soares, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, questões socioeconômicas devem ser analisadas para entender as diferenças regionais. “Norte e Nordeste têm salários menores e, com isso, a desigualdade é pequena, mas continua sendo desigualdade. Em regiões com salários mais altos e em centros urbanos, que têm maior concentração de empresa, a disparidade aumenta”, diz.

Escolaridade x diferença salarial – Quanto mais altos os níveis de escolaridade dos trabalhadores, maior é a desigualdade entre os sexos. Independente do tempo de estudo, os homens sempre ganham mais, mas essa diferença começa pequena, de menos de R$ 1 por hora, para trabalhadores com até 4 anos de estudo, e cresce até atingir mais de R$ 13 por hora para pessoas com mais de 12 anos de estudo. Em cargos de gerência, por exemplo, os homens ganham, em média, R$ 5.222. Já as mulheres recebem R$ 3.575.

Segundo Cristiane, a desigualdade de gênero é um dos fatores que explicam essa situação, mas não o único. Entender a inserção no mercado de trabalho é importante. Com pouca escolaridade, segundo a pesquisadora, os trabalhadores de ambos os sexos costumam fazer trabalhos braçais, como os de domésticas e de serventes de obra, existindo uma “afinidade” de ocupações. Pessoas com 12 anos ou mais de estudo, porém, formam um grupo mais complexo.

“A escolha das carreiras é influenciada pelos papéis. Para onde a mulher vai no ensino superior? Área de saúde, de educação, que são áreas de cuidado. Na saúde, você vê técnicas de enfermagem e enfermeiras, mas não cirurgiãs, que são postos que pagam mais. No serviço público, a mesma coisa: cargos de assessoramentos mais baixos têm mais mulheres; os superiores, mais homens.”

A juíza titular da 1ª Vara Criminal de Brasília, Ana Cláudia Mendes, observa isso no seu trabalho. Ela é concursada e, por ser servidora pública, recebe o mesmo salário que os colegas magistrados, mas diz que as mulheres são preteridas na escolha para cargos ditos “de confiança”. “No cargo de juiz, a única possibilidade de outras funções seria como assistente de tribunais superiores e, a grande maioria, é, sim, ocupada por homens.”

Segundo a economista e pesquisadora de gênero Tânia Fontenele, coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, os postos de poder, historicamente, são majoritariamente masculinos. “Homens escolhem homens, e fica esse círculo perverso porque muitas organizações discriminam as mulheres porque elas precisam sair para cuidar dos filhos. A culpa é do pai, é do machismo e também de questões culturais”, diz.

A advogada Júlia Ximenes, 46 anos, conhece bem as consequências de ter uma tripla jornada. Doutora em Direito e mãe de um casal de gêmeos, de 11 anos, ela também é professora e viu seu salário reduzir em 15% no momento em que precisou deixar o cargo de direção em uma universidade para “conseguir dar conta” da intensa rotina em casa.

Mesmo com a participação do marido nos afazeres domésticos, ela precisou abrir mão de um cargo e salário mais altos para poder ter mais tempo disponível para a família e os filhos. “Tinha sempre que conciliar uma festinha de Dia das Mães com uma demanda da instituição e rotina acadêmica, além de dar colo, fazer lanches à noite, um bolo ou feijão.”

Além de ganhar menos, as mulheres ainda sofrem mais com o desemprego. A pesquisa mostra uma taxa de desocupação masculina de 7,7% e feminina de 11,6%. Segundo Cristiane Soares, as mulheres têm inserção de trabalho inferior aos homens, pois sempre foram ligadas a cuidados da casa e dos filhos. Quando o mercado está aquecido, ele busca essas mulheres como uma mão-de-obra a mais, mas, quando há uma crise, o impacto é maior para elas.

“A própria condição dela, que não conta com um serviço do estado para deixar seu filho e que, com isso, não consegue se qualificar e buscar novos trabalhos, a afeta muito. A inserção no mercado depende de um aparato social que permita a essa mulher chegar ao trabalho, a trabalhar.”

Tarefas de casa – De fato, os homens trabalham mais no trabalho principal que as mulheres – uma média de quase seis horas a mais por semana. Mas, na contrapartida, as mulheres gastam 10,5 horas a mais que os homens em trabalhos domésticos (lavando pratos, arrumando a casa, cuidando dos filhos, entre outros afazeres). Por conta disso, a jornada total feminina por semana fica mais alta que a masculina, geralmente.

Entretanto, segundo a especialista Tânia Fontenele, o trabalho doméstico muitas vezes não é considerado trabalho. “A mulher acorda às 4h e dorme às 23h, mas [as pessoas acham que  ela não fez nada. Elas ficam sobrecarregadas”, diz.

E essa ideia de que a cultura de cuidados é uma “área feminina” começa desde cedo. A cada 10 meninas de 10 a 14 anos, 7 cuidam de tarefas domésticas. Já entre os meninos, são apenas 4.

“Poderia-se imaginar que, com crianças, tem a questão de ensinar a ajudar em casa, de ensinar a lavar roupa, prato. Mas os percentuais entre os sexos não são parecidos. Ou seja, desde crianças, aprendem os papéis de homens e mulheres e que cuidar da casa é atribuição das mulheres”, diz Cristiane Soares.

Alta escolaridade – Nem tudo, porém, é má notícia para as mulheres. Entre 2000 e 2010, a frequência escolar feminina no ensino médio aumentou 9,8% em relação à masculina. A Pnad de 2015 também mostra ainda que o nível de escolaridade das mulheres é melhor, com 8,1 anos de estudo, contra 7,7 dos homens. Além disso, 15% das mulheres têm superior completo, contra 11,9% dos homens.

Outro fator que aponta o avanço feminino, segundo Cristiane, é o aumento de mulheres que são consideradas referências na família. O IBGE considera como pessoa de referência quem é responsável pela unidade domiciliar (ou pela família) ou assim considerada pelos outros membros. Os homens ainda são maioria (59,5%), mas o percentual de mulheres chefes de família saltou de 30,6% para 40,5% em 10 anos.

“A gente está avançando, mas como? A desigualdade de gênero está no contexto de desigualdade social, então quando falamos de buscar desenvolvimento social, temos que analisar as questões de gênero e os papéis culturais definidos socialmente”, diz Soares.

“Por que a mulher não pode estar no canteiro de obra, ser engenheira? Por que o homem não pode estar na escola, ensinando crianças pequenas? O que fazemos para isso mudar? Fica aí a questão. Tem que bater na mesma tecla.”